quarta-feira, 13 de junho de 2007

Somos analfabetos ambientais?


Dione Kitzmann*

Atualmente, as demandas com relação às capacidades de leitura e escrita visam ao que as pessoas são capazes de fazer com essas habilidades. É o que se chama de alfabetismo funcional, quando ler e escrever servem para continuar aprendendo e se desenvolvendo ao longo da vida. Já o analfabeto funcional é aquele que tem menos de quatro anos de escolaridade, onde estão 27% dos brasileiros com 15 anos ou mais, que não conseguem ler o mundo, para transformá-lo e melhorar as suas condições de vida, como nos ensina o educador Paulo Freire.Na semana do meio ambiente, cabe refletir sobre outro conceito, o de alfabetização ecológica, relacionado com a incorporação dos princípios básicos das comunidades ecológicas nas comunidades humanas, como nos indica o físico Fritjof Capra. Seguir certos princípios ecológicos - cooperação, flexibilidade, diversidade, rciclagem, interdependência - seria o mínimo a fazer para conseguirmos o máximo, que é mudar nossa cultura baseada na competição, consumo e produtividade exarcebados, em um modelo econômico insustentável em termos sociais e ambientais. É entender o funcionamento do planeta para ler e pronunciar um novo mundo humano.

Como os analfabetos funcionais, que não conseguem ler o mundo para melhor viver e transformá-lo, somos analfabetos ambientais, incapazes de ler o planeta para vivo mantê-lo. Mesmo conseguindo ler os símbolos ecológicos, não entendemos seus significados ambientais. E, se entendemos, não conseguimos mudar nossos sistemas - econômicos, políticos, sociais, culturais - em função disto. Somos incapazes de mudar para não mais mudar o planeta numa escala que ele não pode suportar.

Quando lemos que uma das metas governamentais para a educação é levar luz elétrica a todas as escolas (o que indica a situação em que se encontram), entendemos que ainda falta muito para superarmos nossos analfabetismos funcionais ou plenos. Quando vemos que essa energia elétrica poderá ser gerada a qualquer custo socioambiental (leia-se hidrelétricas como as do Rio Madeira, em pleno bioma amazônico), entendemos que nosso analfabetismo ambiental vai demorar muito a ser superado.

Já foi escrita a cartilha que une as agendas sociais, ambientais e econômicas, o tripé sobre o qual deve ser construída a sustentabilidade. É a Agenda 21, que indica caminhos a serem construídos por nossas sociedades humanas. Temos que reaprender a ler e a pensar o mundo e o planeta, reescrevendo o nosso futuro como espécie, pois, como disse Mario Quintana, os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem.